Nelson Bandeira
Pois é! Quando adolescente, ao acordar no dia 6 de outubro, ouvia o pipocar dos foguetes, o trinar dos velhos instrumentos musicais dos músicos que a cidade tinha, e por amor à arte e à tradição religiosa, abriam-se as cortinas para o início dos festejos de Santa Teresa d’Ávila.
As barracas com as iguarias eram expostas no meio da Rua 15 de Novembro, entre a Gonçalves Dias e Treze de Maio. Tudo era artesanal, feito de palha de piaçaba. Ser palha é ser quase nada, um tudo, um teto, um tempo, para a alegria e o delírio de um povo. E agora, nada.
Ainda bem que a natureza é sábia e justa. A sinfonia dos pardais fez com que, para aqueles que ainda se lembram da velha tradição, vissem a substituição da alvorada musical e do foguetório, que era praxe e indispensável neste dia de início de festejo.
Ah que saudade da “gengibirra”! Feita de cachaça e gengibre, degustada pelos corações desgarrafados. Uma delícia!
Os leilões traziam como prendas leitões precoces, galinhas caipiras (até porque na época não tinha de granja), patarrões, perus, bolo brevidade e tantas outras espécies, tudo feito e preparado nas casas dos devotos do festejo.
Os homens de melhores posses andavam desfilando bem trajados, em seus cavalos bem nutridos, com seus trinta e oitões à cintura (como guardas templários), visualizando logo a diferença de posse. Tudo corria bem, sem sequer registrar qualquer tipo de violência.
Mas o critério do fracasso, oposto do sucesso, foi tomando conta dessa tradição, que julgamos na acepção religiosa era para ser a transmissão de práticas ou de valores espirituais de geração em geração, como o conjunto de crenças de um povo, algo que deveria ser seguido consideradamente e com respeito através das gerações.
No entanto, temos saudade dos velhos tempos, que se completa com as palavras de Michel de Montaigne: “Pode-se ter saudades dos tempos bons, mas não se deve fugir ao presente”. Que em parte é uma lástima!
Do jeito que vão as coisas, essa tradição procopiana só vai ficar com a missa. E a procissão fluvial? Vai depender da “barragem” porque tudo referente ao Rio Tocantins depende das previsões das comportas da hidrelétrica de Estreito.
É bem capaz de aparecer um presbítero e/ou profano desorientado e aconselhar ao pároco para não trafegar com a Santa Padroeira por água, com isso evitaria a catástrofe de um naufrágio com essa relíquia centenária.
Mas é bom lembrar que ela veio de Belém (PA) dentro de um “batelão” e chegou sã e salva, sem nenhum arranhão de “calumbi”, árvore espinhenta e povoada nas margens do rio como mata ciliar.
Não há nada impossível, pois os sonhos de ontem são as esperanças de hoje e podem se converter em realidade no amanhã. Então vamos esperar por esse milagre e que os festejos venham revivescer sua história com as intercessões benignas do Papa Francisco.
É bom ter esperança, mas é ruim depender dela.
Edição Nº 14829
Que saudade dos velhos tempos!
Nelson Bandeira
Comentários