Nelson Bandeira
Como disse um prefeito bem letrado para um vereador analfabeto nos tempos idos de Imperatriz cheia de controvérsias, no discurso de inauguração de um poço artesiano no antigo povoado de Trecho Seco.
O “viriador”, como ele próprio pronunciava, em xaveco com o prefeito, dizia que era preciso bater cacholeta nas suas orelhas e chalerar bem para fazer cumprir seus pedidos. “É por isso que venho gabar meu admirado e cumpade prefeito pela feitura desse poço d’água”.
O prefeito, retribuindo o seu xiribabo (puxa-saco) viriador, reportou-se: “Quero agradecer as palavras pulverizadas de elogios que recebo nesse instante desse monsenhor representante do povo que eu considero um poço de cultura”.
O vereador, muito alegre, fala baixo para os espiões: “Além de prefeito, é meu cumpade”. Muito bem coroado nas letras, ele adorava, depois de uma inauguração, comer uma penosa com uísque. “É o que nós faz na casa da cumade Capininga. Infelizmente, a vida pública é assim mesmo”.
A oposição ao prefeito não gostou de como foi conduzida a inauguração do badalado poço. Na reunião da Câmara, um deles deitou falação sobre o acontecido. Não sabemos se por ciúmes.
Mas o viriador curraleiro tinha uma coceira no corpo danado, fazia tanto gesto que parecia mais com um soinho. Aí, o opositor, já chateado, aconselhou que seu colega tomasse um banho de água morna misturada com malva para extirpar a “pira”.
“Cumpade, a Bibla diz que Deus é o cara mais bajulado do mundo e você aqui no nosso terreiro, ridiculamente apaixonado pelo prefeito”. Como o edil era apalermado, caipira, matuto... O mandatário atribuía logo:
“Não sei o que esse babaquara está fazendo na tribuna. Mas é viriador, preciso de seu apoio”.
Para o letrado prefeito, era preciso em certos momentos de vida pública ter piedade pelo que articula mal as palavras e não sabe o que diz. Muito obsequioso com o poder municipal, diga-se de passagem.
O viriador da falecida Arena amava por um pau ronca. E fazia o cumpade prefeito espirrar muito quando fazia cerão na sua residência, era um autêntico borrifador. Mas o homem público de outra estirpe tem que estar preparado para esses desafios, quando eleito e indicado pelo povo.
Contextualizando esse episódio, finalizando termino falando dos Alpes do Delfinado, situado na França, muito belo lugar; certo que o cumpade prefeito recebia toda semana cofos e mais cofos de ovos caipira para o seu deguste diário.
Queria fazer do homem letrado um verdadeiro “tiú”, de tanto papar ovo, pois faz bem para a visão e cérebro, e tinha que estar prontinho, porque o viriador era um pichilinga da peste.
O passado já ditava: “Todo homem tem seu preço. Alguns preços de banana”.
Que Santa Teresa D’Ávila abençoe este domingo.
Edição Nº 14961
Poço de cultura
Nelson Bandeira
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