Nelson Bandeira

Saímos por aí descendo o rio Tocantins com a intenção de fazer uma boa pescaria e alcançamos um povoado chamado antigamente de Frades, na margem maranhense do rio.
Certo que a pescaria seria feita de caniço. Tentou-se e não se teve receptividade esperada para peixe, o que se pescou só deu para um assado e tira-gosto com umas boas doses de pinga.
Aí, um dos companheiros teve uma brilhante ideia de contratar um pescador de tarrafa no povoado Frades, que estava sendo visitado por nós. Uma pinga aqui e outra acolá, se encontrou o profissional para pescar uns peixes mais graúdos.
Acertou-se o preço, o pescador vestiu logo um gongol feito de pano forte, camisa de meia manga comprida, chapéu de palha, e chispamos rio abaixo.
A tripulação da canoa grande era de quatro pessoas, incluindo o pescador contratado. De vez em quando um fazia um verso para beber uma pinga, como esta: “Cachaça do Diabo, filha do Satanás, beba essa cachaça rapaz”.
Pescador pronto para arremessar a tarrafa com doze quilos de chumbo. Com precisão arremessou a bicha, que caiu aberta como um prato. Fazendo todo aquele caqueado de quem conhece o ramo, solta logo o cacoete: “Tem uma meia dúzia de peixes laçados e enroscados nas malhas da tarrafa”. Foi contagiante o anúncio. Lá foi mais uma rodada de pinga.
Depois de degustar o líquido etílico, o pescador fala que a tarrafa está enganchada numa ‘tronqueira’ de paus, submersa nas águas do rio. Com isso tem que fazer um mergulho para soltá-la desses entraves.
O pescador tirou a camisa, ficou só de gongol, tomou uma lapada de cachaça e mergulhou para soltar a tarrafa do engancho.
Os demais ficaram na canoa torcendo para que tudo desse certo e que fossem retirados os peixes que deram sinal de sua captura.
Para surpresa - e olhe que surpresa -, quando o pescador sai de dentro d’água, se apresenta somente com um olho, o outro do lado direito ficou só o buraco. Que espanto!
Nisso, o pescador passa a mão no olho direito e diz: “Perdi o meu olho de vidro. E agora?”. Um dos companheiros, já atochado de aguardente, fala para o inditoso homem da pesca: “Coloque no lugar uma peteca com superbonder que resolve o problema da visão perdida”.
Resumidamente, fomos obrigados a levantar recursos para comprar outro olho de vidro para ser colocado no pescador.
Certo que a pescaria nos causou um pânico tremendo, mas valeu a pena.