Fazer voltar à memória é lembrar-se de uma pescaria que fizemos no rio Gurupizinho, com curso e nascente em terras paraenses. O que aconteceu naquela noite enluarada foi uma assombração para o cozinheiro do barracão.
A pescaria foi bem estruturada, com um planejamento adequado à turma que foi pescar nesse rio estreito, mas de muitos peixes, caça à vontade, especialmente, capivaras, que andavam em bandos pelas margens do saudável rio.
Ao chegarmos ao local determinado e escolhido, montou-se um barracão de lona preta, uma cozinha apropriada para tanto, com os apetrechos para que o cozinheiro que foi contratado pudesse trabalhar satisfatoriamente – o ambiente bem fechado desde sua cobertura e suas respectivas laterais, para evitar entrada de insetos e outros bichos.
A pescaria foi um sucesso. Fisgamos muitos peixes, principalmente piau cabeça-gorda, surubins, piranhas e tantos outros. Fato acontecido no período da Semana Santa.
No Sábado de Aleluia, fomos fazer uma varrida nas margens do rio com o intuito de capturar uma caça para mudar o gosto da alimentação. No barracão ficou somente o cozinheiro, preparando um cozido de surubim para degustarmos à noite quando chegássemos dessa aventura.
Usamos duas canoas, uma turma de três pessoas subindo e outras três descendo o rio. No barco que nos conduzia, estávamos em silêncio absolutos para flagrar o animal na toca.
De repente, ouvimos um grunhido, parecido com um espirro, aí o jacumãzeiro falou bem baixinho: “Isso é anta”. Era numa curva.
Quando saímos dela, deparamos com dois mamíferos de três dedos enormes. Não contei estória, estourei um cartucho 3T bem no meio de uma delas.
Ah!, meu amigo! Uma das antas saiu desembestada rumo ao barraco, o cozinheiro deitado numa tipoia, ouvindo um rádio, quando o animal enlouquecido varou o barracão adentro, acabando com tudo que estava levantado, inclusive o cozinheiro foi ao barro também. Tinha surubim e arroz espalhado por tudo que era lugar.
Quando voltamos, todos mortos de fome, pensando na surubinzada que estava preparada no leite de coco, encontramos o cozinheiro muito abatido pelo que viu.
Sem sabermos de nada, perguntamos o que tinha acontecido para aquele estrago todo. Respondeu assombradamente: “Passou um bicho preto com uma velocidade que parecia um raio, e ainda deu um berro escandaloso e caiu dentro do rio. Estou morrendo de medo e com arrepios até agora! Estou bastante cabuloso”.
O erro da estratégia foi misturar caçada com pescaria. Não dá certo, não. Estava tudo tranquilo, de uma hora pra outra, fica uma pescaria assombrada.
O pobre coitado do cozinheiro até hoje toma remédio controlado pelo trauma proveniente daquela noite de assombração.
Mas o medo é a maior das doenças, porque paralisa o corpo e a mente.