Nelson Bandeira

Dizem os experientes que a paca, nome de origem tupi, tem quatro dedos nas patas dianteiras e cinco nas traseiras. O consumo predileto de sua carne é tão reimoso que dá remela até em boneca.
Um comprador de bugigangas em feira livre. Sempre residindo no interior. Certo que o aventureiro habitava num povoado no estado do Pará, numa região acidentada de sobe-e-desce ladeiras, no trajeto tinha que abrir e fechar várias porteiras com suas respectivas cancelas, muito comum do sertanejo.
Bom, o feirante tinha um fusca já bem surrado e lhe satisfazia levar mercadorias desses locais públicos para revender na localidade onde morava.
Observando atentamente as mercadorias que poderia comprar, encontrou um necessitado vendendo uma paca viva, pela qual o feirante ficou tarado para criá-la. Quando estivesse gorda, mataria para a comemoração de seu aniversário.
Como no fusca não tinha mais espaço para colocar mais nada, pegou a paca com as patas amarradas e colocou-a entre o banco do motorista e os pedais, com a cabeça do animal virada para o pé que movimenta o acelerador do veículo.
Assim o feirante prosseguiu a viagem com a paca, atravessada e deitada no piso do assoalho do velho fusca.
Na primeira ladeira, o feirante cerrou a embreagem do fusca para chegar ao final da primeira porteira e abrir e continuar a sua trajetória.
O animal estava enfezado com o calor e a falta de água... No meio da ladeira, a paca sentou o dente no tendão de Aquiles do feirante; com aflição da dor da mordida e aquela agonia toda, em vez de parar o fusca, apertou foi o pé no acelerador, bateu nos pilares do portão feito de aroeira.
Só restou a mercadoria, porque o feirante e a paca foram para o oriente eterno.
Leonardo da Vinci profetizou, dizendo: "Virá o dia em que a matança de um animal será considerada crime tanto quanto o assassinato de um homem".
Só que nesse caso o assassino e a vítima não ficaram para contar conversas e abrir o inquérito criminoso - foram todos para o além.
E a rainha da mata ficou para a degustação do banquete dos urubus.