Nelson Bandeira

Lembranças que o tempo não pode mudar. Como bem disse Mário Lago: "O tempo não comprou passagem de volta. Tenho lembranças e não saudades".
Com esta indagação é que passo a animar minhas estórias, bem ou mal contadas, dando vida àquilo que presenciamos. Como realidade ou fruto do imaginário.
Certo que, entre os jovens imperatrizenses de outrora, havia um personagem, exímio professor de matemática, trazendo como instrumento de trabalho uma palmatória feita de pau d'arco; nos finais de semana, era um torcedor ferrenho do Cavalo de Aço.
Baixo, careca, adorava um aperitivo ao ponto de ficar vermelho igual peru, e não tirava da cintura nos momentos de lazer e trabalho uma faca peixeira de 22 polegadas - era o ritual e costume daquele povo antigo, a arma era objeto seu inseparável.
Na época, havia um bar-mercearia chamado Cachimbo de Aço. Aos domingos, biritavam à vontade, até a hora do jogo começar, no campo onde foi a Praça Tiradentes e hoje o malfadado Camelódromo.
Partida acirrada e o velho professor puxava sua peixeira da cintura e passava a riscar o chão para amedrontar o árbitro da partida, que apitava de calça comprida, bem penteado, sapato Vulcabrás. A atitude do "respeitado" professor acontecia sempre quando o seu time estava perdendo.
Quando o velho artífice voltava pra casa, já tarde da noite, começava a chamar pelo nome de sua companheira. "Abra a porta, abra a porta, senão, você já sabe como é a lapada de minha peixeira!".
A mulher, já sabendo de sua fragilidade alcoólica, dava-lhe um catiripapo acompanhado de biscas e jogava-o dentro da rede; ao levantar, com os "zói" cheios de remela, ia para o seu comércio no dia seguinte, e mais tarde esperava seus alunos de matemática.
Resultado dessa conotação sugerida na estória: que os tempos não voltam mais. Porque o personagem e tantos outros faziam contos tradicionais e o entretenimento da cidade provinciana.
Só nos deixaram lembranças.