Nelson Bandeira
Para início de conversa, os dois são apaixonados por caçada; esporte este recheado de mentiras que estão entre as setes atitudes que Deus detesta... Mas, para o caçador de animais silvestres, além da espingarda, cartuchos, a mentira é a pólvora linguística de suas próprias façanhas.
Um deles foi caçar cutia, mamífero roedor, nome de origem tupi. Certo que a noite foi uma assombração, somente morcegos faziam vertigens de bicho na mata, outros não quiseram aparecer.
Descendo da espera solitariamente e fazendo seu regresso de volta pra casa, com a espingarda no ombro e seguindo sua caminhada. Caminho estreito, mato fechado, em certo momento depara-se com um pé de mamão do roxo, comprido e com frutos já maduros jogados ao chão.
O quê fez? Escolheu o melhor mamão e colocou no ombro a caminho de casa; em dado momento ouviu algo estranho pular atrás de si... Virou-se rapidamente, mas não viu nada.
Mais adiante aconteceu a mesma coisa. Ficou a pensar: “Será assombração?! Mais tarde outro pulo... Não se conteve, largou o mamão no chão.
Resultado: o fruto estava cheio de cutia. Lamentou muito em não ter detectado que isso poderia acontecer... Tinha feito uma ótima caçada, matando os mamíferos dentro do mamão.
Mas um dia é da caça e outro do caçador!
O outro personagem da mentira disse que aquilo não era nada, pois na sua terrinha, lá bandas do riacho Barra Grande, fez um plantio de mandioca para fazer farinha.
Não é que, ao travessar um córrego através de um mata-burro, começou a ouvir um ruído como se fosse animal correndo.
Ficou amuado com aquilo e passou a investigar; foi então ver no sentido contrário do mata-burro que dá acesso do plantio de mandioca para um matagal próximo se tinha algum buraco.
Pois não é que nasceu uma raiz da mandioca gigante, atravessando o córrego, onde as capivaras comeram o miolo da batata e fizeram da casca um túnel ligando a mata para a roça para se alimentarem do aipim?!
Os dois, conversando sobre as inusitadas estórias, terminaram bebendo um litro de cachaça sertaneja, para proeza dessa crônica.
Como bem batizou Mário Quintana: “A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”.
Edição Nº 14661
O encontro de dois mentirosos
Nelson Bandeira
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