Nelson Bandeira
Como a migração e o progresso modificam os hábitos e os costumes. A Imperatriz dos anos 50 tinha somente a Rua 15 de Novembro e outras adjacentes, iniciando na Praça Fátima.
Com o advento da construção da Belém-Brasília, começou a inchar sem planejamento, sem orientação técnica, ao ponto de vivermos hoje com tantas controvérsias.
Por certo que naqueles idos a cidade tinha um povo festeiro e bastante disposto a comemorar os festejos de nossa padroeira Santa Teresa d'Ávila, com o espírito fervoroso pelos ensinamentos familiares.
As barracas eram feitas no meio do leito da rua, próximas ao santuário da nobre santa.
Muitas iguarias, gengibirras, cachaça do alambiqueiro. Muitos homens usavam seus cavalos como esnobação de que tinham uma ponta de gado. Portava na cintura uma cartucheira cheia de balas e um trabuco à mostra. Mas nada de violência.
Como naquela época não se tinha foguete, animava-se o ambiente festivo com tiros a esmo. Alguns incidentes aconteciam com corujões passando na área e sendo atingidos por bala perdida. O IBAMA ainda nem pensava em nascer.
Aos domingos, tinha aquele vesperal dançante. As moças todas bem alinhadas, bem pintadas com seiva de urucum, cabelos penteados com óleo de babosa. Os homens também não fugiam à regra: quase todos de paletós brancos, com bastante goma de tapioca que o vinco da calça ficava tão duro como costa de serrote. Salão de chão bem batido para arrastarem os pés até alta noite.
Sanfoneiro pronto, acompanhado de uma rebeca e um surdo. Música inicial de uma só nota: "Cadê o peba/está no buraco/Cadê o peba/está no buraco". E por ai varava-se horas e horas.
Os namoros eram acompanhados do pai e da mãe. Tão logo o cabra começava a acochar a pérola, ouvia-se logo aquele esturro, como se o sujeito estivesse engasgado. Aí amigo, quando casava tinha uma lua-de-mel mesmo, porque a mimosa era bem protegida.
Quando a razão desse amor paria, eram quarenta dias de resguardo. A parida comia quarenta frangos bem capados para não trazer nenhuma reima. Não podia pegar sereno e tampouco chuvisco. Farinha seca bem escaldada para misturar com arroz meloso com pouco sal, para não acontecer contratempo com a dieta. Depois da regra de viver assim, é que ia ver a luz do sol.
O tempo era bem respeitável e ditado às boas regras. Hoje, nem tanto, muitas delas com três dias depois de paridas, já estão prenhas de novo. Mundo moderno é assim. Nem se fala mais em água inglesa.
Cícero profetizou assim: "A história é testemunha do passado, luz da verdade, vida da memória, mostra da vida, anunciadora dos tempos antigos."
Edição Nº 14512
Coisa do respeitável tempo
Nelson Bandeira
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