Nelson Bandeira
Caminhando na trilha do passado, vivificamos sempre estórias inusitadas, ao ponto de pessoas carismáticas atenderem mais pelo pseudônimo do que pelo nome próprio.
Neste caso, falo de um amigo que ficava satisfeito quando era chamado de “Cara de Tatu”, por entender que o nome inventado por pessoas como escritores, poetas, jornalistas, artistas, ainda pode ser tutelarizado.
Era um homem pacato, fazendeiro, com posses e propriedades localizadas no município de Montes Altos (MA), e com muita queda para a política partidária.
Gostava muito de festas, de festejos, consagração de santos, leilões e, especialmente, de um arrasta-pé de salão de chão batido.
A última comemoração que participei foi do seu aniversario. Foram dois dias de festa. Para abrir a festança, convidou o promotor e o delegado da cidade. Depois dos falatórios, o sanfoneiro arrochou o dedo no acordeom até as 5 da manhã.
Ele sempre me chamava de Vizinho, por morarmos próximos. Ao clarear do dia, um sábado, me chamou para irmos a sua fazenda nas terras de Montes Altos.
Chegando lá, beliscando um copo de cerveja bem gelada que levava numa caixa de isopor, chamou o vaqueiro e mandou que matasse um boiote castrado.
O vaqueiro, submisso e obediente por demais, saiu a cumprir a ordem. Em dado momento, o amigo Cara de Tatu foi até ao local onde tinha sido morto o animal, falando para o vaqueiro assim, chamando-o pelo apelido: “Ei, Toco de Amarrar Jegue, abra a barriga do boiote e tira o fígado para depois tirar o couro do animal”.
Assim o fez o capataz, levando o fígado do animal novo, que é teoricamente saudável. De imediato, mandou a cozinheira da fazenda aferventar para ser degustado com sal e pimenta do reino, acompanhado, é claro, de uma Antarctica bem gelada.
Sempre comentava sua candidatura a prefeito de Montes Altos, e se eleito iria montar uma fábrica para extrair óleo de pequi, porque era a única matéria-prima com abundância naquela região.
Quanto ao transporte dos frutos, não haveria problema, porque na localidade tinha uma “jumentada” capaz de atender ao deslocamento do produto nativo, trazendo emprego e renda.
Mas, naquela época, era outra concepção, só tinha a visão empírica, o maquiavelismo ainda estava engatinhando. Felizmente, as questões eram todas rudimentares.
Mas o coração não agüentou o arrojo extemporâneo do Cara de Tatu, partindo para o oriente eterno, porém deixando o exemplo de ser um bom amigo.
Ele sempre tagarelava: “Conte sua idade com amigos, e não com anos”.
Que a paz esteja sempre acompanhando Cara de Tatu!
Tenha um domingo saudável.
Comentários