Nelson Bandeira
Um corte de cabelo com aquele barbeiro tradicional é mais rápido, prático e econômico. O gostoso mesmo é estar nas confissões dos respeitáveis clientes e profissionais da arte de cortar. Uns cabelos bem cuidados, outros maltratados, poucos cheirosos e muitos fedorentos.
O barbeiro faz o papel de conselheiro, de orientador, é um profissional que está por dentro de tudo que acontece no mundo social da cidade onde vive.
Ele se manifesta no sentido do preparo físico e se gaba de ainda não ter sofrido do “mal de ler”, proveniente do manuseio diário com a tesoura. Graça aos seus orixás.
Você corta o cabelo e tira a barba em determinado período do mês. E ele ainda diz para o cliente: “Você não tem de raspar nada abaixo do pescoço.” Bem cuidadoso o barbeiro.
A conversa continua nos bastidores até o final de cada corte de cabelo. Aí, ele faz uma comparação sobre o homem e a mulher: “Você não precisa sentir dor para ser pai. Que experiência! A mulher supera o macho nesse campo com a dor do parto”.
Nesse dia me encontrava na barbearia no Mercadinho lendo um jornal. Chegam dois cidadãos já bem usados – um de cabelo e barba grandes e brancos, e pede para o barbeiro tirar somente a barba. O outro velho retruca e pergunta: “Por que não cortar logo o cabelo?”. Responde que não, é só a barba. “Ah, não sabia que tu querias ser padroeiro!”. Legal o repente do ancião.
Mas tem momento que certos profissionais da tesoura ficam pê da vida quando alguém diz que contraiu a doença de Chagas. Foi chupado por um barbeiro. “Safado mentiroso” é o paradoxo dele.
E, o pior ainda, tem malandro no barbeiro.
Olha só esta. O cara chega e fala:
- Dá um trato nessa juba aqui, ô do avental!
Pediu ao barbeiro, largou o menino lá e se mandou pra rua, demorou, demorou, o barbeiro vai e fala para o garoto:
- Acho que teu pai se perdeu! Faz duas horas que saiu e ainda não voltou.
- Ele não é pai não, moço! Eu estava no meio da rua quando aquele homem me parou e perguntou se eu tava a fim de cortar o cabelo de graça.
- Ih, perdi meus cinco reais!
Esse cano entrega-o para o nosso santo protetor, Santo Martinho de Porres, para livrar-nos desses impiedosos malandros.
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