* Nelson Bandeira

O caçador sempre tem aquela vontade louca de ir para a mata caçar qualquer bicho que satisfaça seu plano, capturando de preferência um bom vertebrado para degustar com leite de coco babaçu.
Num passado bem distante, a arma usada pelos caçadores era uma espingarda "prufora", carregada pelo cano e acionada por espoleta, bucha, pólvora e chumbo, também conhecida vulgarmente como "soca-soca".
Aqui na Terra do Frei, tinha um caçador bastante conhecido, mas poucas pessoas acreditavam nele. Enfeitava por demais suas aventuras nas matas virgens da região naqueles tempos remotos.
As matas eram próprias para caçar; além dos bichos selvagens, tinha muita muriçoca e mosquito borrachudo. Então, o nosso ilustre personagem da caça, antes de subir na árvore para armar a rede para a grande espera, fazia um 'xixizinho', com aquela cor bem amarelada, igual a açafrão, proveniente do sumo de macaúba e jatobá seco, misturado com farinha da terra, com o objetivo de espantar e evitar que os pernilongos atrapalhassem sua mira noturna.
Na atividade desse entretenimento, o caçador, depois de fazer todo esse ritual do mundo animal, subiu na espera. Já sentado na sua baladeira (rede), começou a carregar sua 'prufora', quando chegou na hora de socar o chumbo, cadê?! Simplesmente, esqueceu em casa.
Aí a coisa complicou para o caçador. Pensou, pensou, meteu a mão no mocó e só encontrou um grampo de cerca para arame farpado.
Mesmo assim, carregou sua arma de precisão. A noite foi ficando escura; o silêncio, reinante. Até que ouviu o pisado de um bicho, vindo de lá pra cá.
Pela pisada, sentiu que era um animal de pequeno porte; quando se aproximou, se coçando num jatobazeiro, sob a sombra de uma árvore, não dava para distinguir que caça era.
Nisso, o bicho ficou passando o rabo curto no pé de jatobá... Não deu outra: o caçador arrochou o dedo no gatilho de sua confiável 'prufora'. Quando a espoleta estourou, ouviu logo o berro do veado. "Meu Jesus, é um mateiro!", exclamou o caçador.
Resultado: o grampo disparado grampeou no tronco do jatobazeiro, o rabo do veado... Dando tempo para descer da espera, puxou seu punhal de cabo de cobra coral, sangrou o animal engrampado na árvore e ficou bastante feliz com a caçada realizada.
Por fim, atirou no que viu e acertou no que não viu... Muito sagaz esse atirador.
Mas, como bem disse Vittorio Alfiéri: "Os mentirosos estão sempre prontos a jurar". Por que não acreditar?!