Nos tempos de outrora se exercitava cada comportamento desconhecido, especialmente quando envolvia delegado de polícia, na época chamado de calça curta, e os subalternos também do mesmo naipe.
Num lugar denominado Coco Rançento, lá pras bandas de Campo de Perizes, o delegado tinha duas linhas de investigação para apurar certos crimes e certas arruaças.
Naquela delegacia tinha um quintal muito grande, com um pé de mamão macho (florava, mas não dava frutos), no rodapé entre as raízes havia um formigueiro de formiga-de-fogo, e mais adiante, um mourão deixado de um pé de maçaranduba, cada desses servia para investigar meliantes presos, conforme as gravidades cometidas.
Crimes como estupro, assassinato, agressão física, quando o preso negava seu envolvimento, o delegado mandava seus comandados despi-lo e amarrava no mamoeiro com os pés em cima do formigueiro, sob a observação de um guarda de sua confiança.
Logo, logo, o preso pedia para ser solto do mamoeiro porque ia contar para o delegado a confissão de sua culpa.
Pois bem. Aí o seu delega, cheio de autoridade, vem com essa:
- O meliante é alérgico a picadas?
- Não doutor, não sou viado não, sou homem mesmo.
- Não estou falando daquela picada, meu! E sim das minhas formiguinhas investigadoras. Dói muito o seu castigo. Ainda não me trouxe nem uma sequela que comprovasse isso, mas que sirvam de exemplo para os demais contraventores da lei.
A outra linha de investigação era para roubos de animais, bebedeiras e tantas outras sem-vergonhices. Colocando o suspeito nu, amarrado no tronco da maçaranduba, para ter o prazer de passar uma noite ao sereno, para que as muriçocas lhe dessem um tratamento corretivo, no qual os pernilongos do bico de sovela faziam a festa no corpo inteiro do distinto.
No dia seguinte, o entristecido mala saía pintado do tronco igualzinho como se estivesse sarampo da primeira safra, o couro parecidíssimo com o do surubinho chicote, de tanta pinta.
O povoado vivia bem com a astúcia do delegado do lugar; todos passaram a viver em paz por muito tempo. Quando o cabra pensava em fazer o mal, lembrava logo das formigas de fogo e das muriçocas sovelas. Mudava imediatamente de itinerário, como o diabo foge da cruz.
Esse tipo de informática é muito cruel para o meliante, vagabundo, vadio, sujeito libertino de maus costumes... Eita tempo que não volta mais. Uma pá de alegria pela ordem e tristeza para os malfeitores.
Edição Nº 14262
A astúcia de um delegado
Nelson Bandeira
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