Aureliano Neto*

Lembro de Dante de Oliveira. Homem de estatura alta, de compleição magra e uma barba preta cerrada, que lhe dava o ar de seriedade de intelectual. Deputado federal por Mato Grosso. Conheci-o no movimento das "diretas já", quando esteve em Imperatriz, no ano de 1983. Vinha eu do MDB, de Ulysses Guimarães, o "Senhor das Diretas", e integrava o aguerrido PMDB, que apenas acrescentara o P, em razão da reforma partidária, que extinguiu o bipartidarismo, fazendo surgir o PDT, de Leonel Brizola, e o PT, de Lula. Tinha participado das eleições de 1982 como candidato a vice-governador, formando a chapa majoritária com Renato Archer. A luta fora árdua. Sem recursos financeiros, caminhávamos por todo o Maranhão em campanha para, na pior das hipóteses, ajudar os companheiros a se elegerem prefeitos, vereadores ou deputados. Em Imperatriz, o combate era acirrado. O pleito municipal estava contaminado pelo antidemocrático instituto da sublegenda, artifício utilizado pelo sistema ditatorial para possibilitar a vitória nas urnas dos candidatos situacionistas. O PMDB lutava com denodo contra todas essas cruéis artimanhas.
Ao lado do enfrentamento armado, objetivando romper com o regime ditatorial, tendo à frente figuras históricas como o deputado José Genoíno, as lideranças políticas brasileiras e o povo deste País se entrincheiravam para conquista do exercício das liberdades públicas. No ano 1979, após sucessivos movimentos reivindicatórios, foi alcançada, malgrado as restrições, a anistia, como decorrência da memorável campanha que almejava a proclamação da anistia geral, ampla e irrestrita. Com esse avanço, as grandes lideranças nacionais, como Leonel Brizola, retornaram para o solo pátrio. Dava-se o passo inicial para reconquista plena da democracia, desejo maior do povo brasileiro.
Extinto o bipartidarismo, Brizola tentou refundar o PTB, sob a sua liderança, mas teve imensas e incontornáveis dificuldades, já que essa legenda se encontrava em poder de Ivete Vargas, o que culminou na perda do pedido de registro dessa agremiação no TSE. Em 1982, governadores dos estados passaram a ser sufragados em eleições diretas. A oposição ao regime militar venceu nos mais importantes estados da federação, como São Paulo, elegendo Franco Montoro, e, no Rio de Janeiro, a vitória consagradora de Brizola, que derrotou a preferida do regime autoritário, a deputada Sandra Cavalcanti, além de vencer a batalha com a poderosa rede Globo, cujo episódio vergonhoso foi o caso Proconsult, uma criminosa tentativa de fraude para impossibilitar a vitória do candidato do Partido Democrático Trabalhista. Felizmente denunciada a tempo e frustrada com a participação da grande mídia internacional. Ah!, a bendita verdade histórica!, que denuncia o quanto de falsos moralistas permeia o nosso mundo da comunicação de massa, em que pesem trajarem a fantasia de democratas.
Conquistada a anistia, que teve também participação da imensa figura cívica do senador Teotônio Vilela, o "Menestrel das Alagoas", que, infelizmente, não tivera saúde e tempo de vida para integrar o movimento das "diretas já", porquanto padecia de um câncer, causando-lhe a morte, aos 66 anos de idade, em 27 de novembro de 1983, em Maceió, outras lideranças históricas estiveram à frente desse monumental movimento: Franco Montoro, Mário Covas, Leonel Brizola, Ulysses Guimarães ("Senhor das Diretas"), Luís Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Tancredo Neves e a inesquecível Fafá de Belém. Os comícios tinham grande participação popular. Em Goiânia, 250 mil pessoas. Em Belo Horizonte, 300 mil. Em Vitória, 80 mil. No Rio de Janeiro, 300 mil e, no segundo evento, de São Paulo, mais de um milhão de pessoas.
As "diretas já" representaram o rompimento do regime ditatorial pelo exercício ativo da democracia, em que a cidadania brasileira, indo às ruas, dizia, num grito retumbante, basta ao autoritarismo. A ditadura estava no seu estertor. Mourejava nas praças públicas. O colégio eleitoral se esfacelava. O presidente militar João Figueiredo, cujo mau gosto considerava o cheiro dos seus cavalos mais agradável do que o do povo, ficou isolado com os seus acólitos palacianos na granja do Torto. A derrota de Paulo Maluf era iminente. Uma questão de tempo.
A emenda Dante de Oliveira não passou. O Brasil vestiu-se de luto. A alegria do amarelo foi substituída pelo sentimento da tristeza. Paradoxalmente, foi uma derrota de Pirro. A democracia saía vitoriosa nesse duro embate. Lembro, ainda, do comício na praça Deodoro, em frente à Biblioteca Pública. Presentes as grandes lideranças nacionais e do Maranhão. Maria da Conceição Tavares, Ulysses Guimarães, esse timoneiro, que deu sua vida pela democracia, Lula, que despontava, a partir do ABC paulista, como o grande líder operário. Foi um inesquecível movimento. Saímos, à época, de Imperatriz, e fizemos alguns pequenos comícios, convocando o povo para o grande evento.
Com as "diretas já", o Brasil ganhou a liberdade, porque ganhou a democracia, cujo processo de construção é eterno enquanto durem aqueles que acreditam nesse regime do povo, pelo povo e para o povo.

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